Banco Master falsificou documentos com Word e PDFs, revela PF

Investigação da PF revela sistema de produção em massa de documentos falsos no Banco Master
A Banco Master operava um esquema sofisticado de falsificação de documentos que funcionava como uma linha de montagem digital, conforme revelado pela Polícia Federal. O método integrava ferramentas de software comum, programação e manipulação de arquivos para criar uma carteira fictícia de créditos que seria vendida ao Banco de Brasília (BRB).
A operação fraudulenta coordenada pela Banco Master envolveu a criação de milhares de documentos forjados em questão de meses, utilizando dados reais de clientes e estruturas documentais legítimas como base para a simulação.
Como funcionava a linha de montagem de documentos
Extração de dados de clientes legítimos
O primeiro passo do esquema consistia em obter informações cadastrais de clientes que já haviam realizado operações legítimas. Conforme a investigação, funcionários da instituição acessavam dados armazenados nos sistemas internos, especialmente relacionados ao CredCesta, um produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de Tecnologia da Informação, o levantamento de números de CPF. Vinicius compilou os dados no arquivo cpf_cessao.csv e executou uma consulta no banco de dados interno, gerando a planilha Dados_cessão.xlsx, que foi distribuída para a equipe em 3 de julho às 16h57.
A documentação reunia informações pessoais dos clientes, como nome completo, CPF, data de nascimento e nome da mãe, transformando esses dados em matéria-prima para a fabricação em massa dos documentos falsos.
Produção automatizada de procurações em lote
Com os dados compilados, a equipe utilizou a ferramenta de mala direta do Microsoft Word para gerar procurações de forma automatizada. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, permitindo a geração de 2.700 procurações em um único procedimento executado em 20 de junho de 2025.
A utilização de recursos de automação do Microsoft Office acelerou significativamente o processo de falsificação, permitindo reproduzir a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas em horas, em vez de semanas.
Separação automatizada de páginas de assinatura
A área de tecnologia do Banco Master desenvolveu aplicações em linguagem C# registradas no repositório GitHub da instituição com propósitos específicos de manipulação de documentos. Uma das funções criadas por Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. realizava a extração automatizada da segunda página de arquivos PDF, justamente a página de assinatura dos documentos originais.
Um arquivo compactado denominado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reutilizadas na montagem de novos conjuntos documentais, acelerando o processo de fraude.
A manipulação de datas e apagamento de registros
Um dos aspectos mais reveladores da investigação refere-se ao esforço deliberado para eliminar informações que pudessem expor a origem dos documentos falsificados. Quando documentos continham informações de data e hora que revelavam sua produção recente, funcionários atuavam sistematicamente para remover ou alterar esses registros.
No Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, o documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Uma edição realizada em 3 de julho de 2025 às 15h26 removeu esse campo visualmente. Em conversa no Teams em 20 de junho, Allan da Silva Machado pediu explicitamente a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora, afirmando: "e precisamos excluir a data".
Apesar das tentativas de ocultação, os registros criptográficos das assinaturas digitais deixavam vestígios incontestáveis. Documentos apresentados com datas anteriores, como 21 de janeiro de 2025, carregavam assinatura digital datada de 20 de junho de 2025 às 14h02min39s, revelando de forma inequívoca o momento real de fabricação dos arquivos.
Alteração de comprovantes bancários
Os esforços de ocultação se estenderam aos comprovantes de transferência bancária. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX, buscando remover elementos como o evento, o número do contrato e o histórico da operação.
Entre as informações que apareciam estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX", que vinculava as operações ao histórico original. Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes, revelando os limites da automação na manipulação de comprovantes gráficos.
Montagem final em arquivos únicos
Após a produção e alteração de diferentes documentos, a equipe utilizava o software PDF24 para reunir os arquivos em um único PDF por operação. A montagem integrava documentos como a Cédula de Crédito Bancário (CCB), a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data já removida.
Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede intituladas "Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras", "Demanda BRB-Tirreno 299 amostras" e "Demanda BRB-Tirreno 119 amostras", transformando diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente em dossiês coesos que simulavam operações legítimas.
O esquema triangular entre Tirreno, Master e BRB
A relação entre a Tirreno Consultoria, Banco Master e Banco de Brasília funcionava como um mecanismo de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuava como empresa de fachada criada especificamente para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que posteriormente utilizava essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB.
A estrutura foi documentada em relatório técnico-pericial da Polícia Federal baseado em apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo, intitulado "Investigações internas – Banco Master", continha 30 slides e documentava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para a produção de documentos relacionados à cessão de créditos consignados ao BRB.
Conhecimento na cúpula institucional
A investigação também identificou que a documentação produzida na operação não ficava restrita aos funcionários responsáveis por sua montagem. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix de Oliveira Neto um "kit dos 300 com assinatura digital".
Alberto respondeu que providenciaria, informando que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, foram enviados arquivos contendo o conjunto de documentos falsificados, demonstrando que informações sobre a operação fraudulenta chegavam à cúpula da instituição.
Preocupações com auditoria externa
As mensagens reunidas pela investigação mostram que a preocupação não era apenas produzir os documentos falsos, mas também explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações sobre os documentos.
A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao". Isso indica que havia um plano para responsabilizar erros operacionais por problemas que, na verdade, resultavam de manipulação deliberada e em larga escala.
Vestígios digitais que desmentem a fraude
Apesar de todos os esforços para apagar rastros, a própria estrutura digital deixava evidências incontestáveis. O choque entre as datas escritas nas Cédulas de Crédito Bancário e os registros das assinaturas digitais constitui um dos exemplos mais robustos da manipulação.
A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas referentes a meses anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente. Essa discrepância impossibilita qualquer argumentação de operações legítimas realizadas em períodos pretéritos, pois o registro criptográfico da assinatura digital é indisputável e inviolável.
A operação fraudulenta do Banco Master, portanto, não dependia apenas da criação de documentos falsos. Havia uma segunda frente deliberada: apagar ou modificar informações que pudessem revelar como e quando aqueles documentos haviam sido produzidos, na tentativa de fazer com que uma sequência de arquivos fabricados em 2025 parecesse documentação de operações realizadas anteriormente.




