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Reajuste do Bolsa Família gera preocupação com contas públicas

Reajuste do Bolsa Família gera preocupação com contas públicas
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Governo anuncia aumento no Bolsa Família com ressalvas de especialistas

O Bolsa Família reajuste de 15% foi divulgado nesta quinta-feira (17) pelo governo federal, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio passa de R$ 675 para R$ 777. Apesar de economistas reconhecerem a compatibilidade do aumento com a reposição inflacionária acumulada, diversos especialistas consultados questionam o momento da decisão e seus possíveis efeitos sobre as contas públicas, inflação e taxa de juros nos próximos anos.

O anúncio ocorre a apenas 17 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concorre à reeleição. Segundo o governo, o reajuste de 15% compensa parte da perda de poder de compra causada pela inflação acumulada desde 2023, que chegou a 17% até agosto deste ano.

Questionamentos sobre o timing político

André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, destaca a dificuldade em não interpretar o movimento como eleitoreiro. "A primeira coisa é que não podemos deixar de considerar que faz tempo que não há reajuste. O problema é que isso está sendo feito às vésperas das eleições, então fica difícil não interpretar o movimento como eleitoreiro", afirma.

José Luis Oreiro, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), reconhece que o reajuste em si é justo, mas ressalta que "o problema é o momento". Ele aponta que essa dinâmica não é inédita no Brasil, evidenciando uma deterioração institucional. "Em 2022, na campanha, aconteceu o mesmo. Isso revela uma deterioração das instituições brasileiras, com decisões que deveriam ser técnicas e automáticas virando instrumento de calendário eleitoral", complementa.

A equipe econômica do governo nega qualquer motivação eleitoral por trás da medida, argumentando que a correção é necessária para manter o poder de compra dos beneficiários.

Precedente de 2022 e a PEC Kamikaze

O último reajuste do benefício havia sido realizado em 2022, quando o programa ainda se denominava "Auxílio Brasil". Naquele momento, o valor médio era de R$ 210 em junho, complementado por um benefício extraordinário que totalizava R$ 400.

Em julho de 2022, a dois meses do primeiro turno eleitoral, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional nº 123, conhecida como "PEC Kamikaze", que liberou um crédito extraordinário fora do teto de gastos. A medida permitiu ao governo de Jair Bolsonaro elevar o piso do Auxílio Brasil para R$ 600, com validade prevista apenas até dezembro daquele ano.

Os dados do Ministério do Desenvolvimento Social revelam um cenário dramático: o benefício médio saltou de R$ 408 em julho para R$ 607 em agosto de 2022, representando uma alta de quase 50% em apenas um mês. No mesmo período, o número de famílias atendidas aumentou de 18,1 milhões para 20,2 milhões, demonstrando a magnitude da expansão do programa.

Impactos fiscais e desafios orçamentários

Conforme informações do ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o reajuste custará R$ 5,8 bilhões em 2026, considerando os pagamentos de outubro a dezembro. A partir de 2027 e 2028, o aumento anual da despesa será de R$ 22,7 bilhões, representando um peso significativo sobre as contas públicas.

Para os economistas, o impacto será relativamente limitado neste ano porque o novo valor será pago apenas nos últimos três meses. Porém, a partir de 2027, o custo adquire proporções maiores nas contas públicas. Juliana Inhasz, economista e professora do Insper, avalia que "em um cenário em que já temos uma questão fiscal importante, esse reajuste acaba contribuindo para o problema".

O aumento não estava incluído na proposta orçamentária de 2027. De acordo com Moretti, a medida elevará as despesas com o Bolsa Família de R$ 157,1 bilhões para R$ 179 bilhões no próximo ano, representando uma alta de 13,9%. O ministro afirmou que o governo poderá acomodar a despesa no Orçamento, garantindo que há espaço fiscal suficiente.

Efeitos secundários sobre inflação e juros

Os especialistas alertam que a análise não deve se restringir ao valor da despesa em si. Também devem ser considerados os possíveis efeitos do aumento de gastos sobre a confiança dos investidores, percepção de risco, inflação e taxa de juros.

Inhasz ressalta que o aumento das incertezas pode impactar não apenas a confiança de empresários, possivelmente adiando decisões de investimentos e contratação, mas também tende a afetar a percepção de risco sobre o país. Quando investidores identificam maior risco em uma economia, passam a exigir remuneração superior para emprestar dinheiro ao governo, encarecendo a dívida pública e dificultando a redução dos juros.

Na prática, crédito, financiamentos e empréstimos podem se tornar mais caros para famílias e empresas, reduzindo o consumo, investimentos e o ritmo de crescimento econômico. Além disso, pode haver impacto inflacionário direto. "É mais dinheiro no bolso das pessoas, o que pode pressionar a inflação. Quando o governo faz isso, está indo na direção contrária da política que vem sendo adotada pelo Banco Central", afirma Inhasz.

Mercado de trabalho e vulnerabilidade social

A queda do desemprego mostra aquecimento do mercado de trabalho, mas não significa que as famílias mais pobres tenham deixado de precisar do Bolsa Família. Oreiro enfatiza que o programa social e a taxa de desemprego medem situações diferentes. "O Bolsa Família é um programa de assistência social, feito para complementar a renda de famílias de renda muito baixa, com a contrapartida de manterem os filhos na escola. Não tem nada a ver com a situação do desemprego".

Em julho, a taxa de desemprego ficou em 5,3%, a menor para o período desde o início da série histórica do IBGE. Ainda assim, Oreiro frisa que o indicador não mostra sozinho se a renda obtida pelas famílias é suficiente, nem mede todas as formas de vulnerabilidade atendidas pelo programa.

Debate sobre eficiência do reajuste

Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), faz uma ressalva relacionada à forma escolhida pelo governo para ampliar o programa. O reajuste incide sobre o piso de R$ 600, recebido por todas as famílias beneficiárias. Na avaliação do pesquisador, seria mais eficiente direcionar os recursos aos adicionais pagos a grupos específicos, como crianças e adolescentes.

Segundo Duque, essa alternativa concentraria o aumento nas famílias com perfis considerados mais vulneráveis. Como a pobreza extrema está em níveis baixos, ampliar o piso geral teria efeito limitado sobre a redução da pobreza. "É claro que, com o passar do tempo, a inflação corrói parte do valor real do benefício. Então, em algum momento, talvez em 2028, faria sentido discutir um reajuste. Mas esse reajuste deveria ocorrer nos benefícios variáveis, e não no benefício básico".

Necessidade de regras automáticas

Oreiro defende que o problema poderia ser evitado com uma regra permanente de correção que reduzisse a influência do calendário político sobre os reajustes. "O programa deveria ser reajustado todo ano, automaticamente, pela meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional — hoje em 4% ao ano".

Na avaliação do professor, a ausência dessa regra permite que uma correção justificável pela inflação seja associada à disputa eleitoral. "É compreensível que o governo tenha tomado essa atitude, mas o 'timing' é eleitoreiro", conclui. O debate permanece aberto sobre como equilibrar a necessidade de reajustes sociais com a responsabilidade fiscal e a independência das decisões técnicas em relação aos ciclos políticos.

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