PSOL recebeu mais votos que PT em SP, mas elegeu menos deputados

Como funciona a eleição proporcional para deputados
A eleição proporcional para deputados federais segue regras específicas que explicam por que o PSOL recebeu mais votos que o PT em São Paulo, mas elegeu menos representantes. Quando um eleitor vota em um candidato a deputado, seu voto soma para o partido ou federação. É justamente essa soma total de votos que define quantas vagas cada legenda conquista na Câmara Federal.
Porém, a eleição proporcional não funciona apenas com essa contagem geral. Além de o partido precisar atingir uma determinada quantidade total de votos, cada candidato eleito deve alcançar uma votação individual mínima para assumir seu mandato. Essa é a razão pela qual a eleição proporcional cria situações aparentemente paradoxais, como a do PSOL em 2024.
O papel do quociente eleitoral na distribuição de cadeiras
Para entender melhor como a eleição proporcional funciona, é fundamental compreender o conceito de quociente eleitoral. A Justiça Eleitoral calcula esse quociente dividindo o total de votos válidos da eleição pelo número de vagas em disputa em cada estado. Em São Paulo, o quociente ficou em aproximadamente 338 mil votos.
Com base nesse cálculo, cada candidato precisa atingir no mínimo 10% do quociente eleitoral para ser eleito. Isso significa que, em São Paulo, era necessário conquistar cerca de 33,8 mil votos individualmente para ter direito ao mandato. Candidatos que não alcançassem esse piso eleitoral não poderiam ser eleitos, ainda que sua federação tivesse conquistado as vagas teoricamente destinadas a ela.
A votação de Erika Hilton e o desempenho do PSOL
A deputada Erika Hilton fez história ao se tornar a deputada federal mais votada da história brasileira, conquistando mais de 1,5 milhões de votos em São Paulo. Sua votação extraordinária ajudou a federação formada por PSOL e Rede a acumular aproximadamente 3 milhões de votos no estado, dos quais mais da metade foram concentrados em seu nome.
Apesar desse desempenho excepcional, a votação de Erika Hilton não foi suficiente para ampliar significativamente a bancada do PSOL na proporção que muitos esperavam. A razão está em um princípio fundamental da eleição proporcional: enquanto candidatos muito votados conseguem "puxar" outros colegas de partido, esses candidatos puxados também precisam atingir individualmente o piso mínimo de votos.
Apenas seis candidatos da federação PSOL/Rede superaram o requisito de 33,8 mil votos em São Paulo: Erika Hilton (1,6 milhão), Sâmia Bonfim (583 mil), Guilherme Cortez (275 mil), Professora Luciene Cavalcante (253 mil), Natália Boulos (114 mil) e a ex-ministra Sônia Guajajara (54 mil). Todos foram eleitos com sucesso.
Por que candidatos do PSOL ficaram de fora apesar dos votos totais
Outros candidatos da federação PSOL/Rede ficaram abaixo do piso mínimo necessário. Raul Marcelo, seguinte na lista, recebeu aproximadamente 29 mil votos, ficando abaixo dos 33,8 mil exigidos. Juliano Medeiros, ex-presidente do PSOL, conquistou cerca de 25 mil votos, enquanto Thiago Ávila, da Rede, recebeu aproximadamente 21 mil votos. Nenhum desses candidatos pôde ser eleito, independentemente da votação total de sua federação.
Segundo especialistas em direito eleitoral, essa situação ilustra perfeitamente como a eleição proporcional funciona. "A votação extraordinária de Erika ajudou o conjunto, mas não substituiu os votos que seus colegas precisavam obter individualmente", explica Renato Ribeiro de Almeida, advogado especialista em direito eleitoral.
Comparação com o desempenho do PT em São Paulo
A federação composta por PT, PCdoB e PV acumulou 2,5 milhões de votos em São Paulo, número inferior aos 3 milhões conquistados pelo PSOL/Rede. Porém, a distribuição de votos entre os candidatos foi radicalmente diferente. A candidata mais votada do PT foi Luna Zarattini, com 233 mil votos, muito menos que a votação de Erika Hilton.
A grande diferença está em quantos candidatos de cada federação conseguiram ultrapassar o piso mínimo de votos. Na federação do PT, 13 candidatos superaram 90 mil votos individualmente, demonstrando uma distribuição mais pulverizada de votos entre os integrantes da chapa. Essa característica permitiu ao PT eleger 11 deputados federais, enquanto o PSOL elegeu apenas seis, apesar de ter recebido mais votos no total.
O sistema de sobras eleitorais
Quando um partido ou federação não consegue preencher todas as vagas a que tem direito pela votação total com candidatos que atendem aos requisitos individuais, surgem as chamadas "sobras eleitorais". Essas cadeiras não ficam reservadas ao grupo que não conseguiu preenchê-las; em vez disso, entram em um novo cálculo de distribuição entre todos os partidos e federações que cumprem os requisitos legais.
O sistema de maiores médias é utilizado para distribuir essas vagas remanescentes. A votação total de cada grupo é dividida pelo número de cadeiras já conquistadas, acrescido de um. O partido ou federação com a maior média que atenda aos requisitos recebe a próxima vaga. Esse processo se repete até que todas as 70 vagas destinadas a São Paulo sejam preenchidas.
Conforme explica a advogada especialista em direito eleitoral Iohana Bezerra: "É justamente por isso que uma cadeira que o PSOL/Rede não conseguiu preencher não pode ser atribuída diretamente a outro partido, como se os votos da Erika tivessem sido transferidos. A vaga volta para esse cálculo e passa a ser disputada pelas demais legendas de acordo com suas médias e com os requisitos aplicáveis".
Especulações sobre uma possível federação PSOL-PT
A situação vivida pelo PSOL gerou especulações nas redes sociais sobre o que teria acontecido se o partido tivesse formado uma federação com o PT, em vez de apenas com a Rede. De fato, essa possibilidade foi discutida recentemente dentro do PSOL, mas foi rejeitada em votação interna.
Contudo, especialistas em direito eleitoral alertam que qualquer projeção sobre esse cenário hipotético seria arriscada. A premissa de que os votos permaneceriam iguais em uma federação diferente é frágil, pois diversas variáveis mudariam simultaneamente. Em uma eventual federação PSOL-PT, a lista de candidatos seria única e limitada ao número de vagas, as estratégias de campanha seriam reformuladas e parte do eleitorado poderia votar de forma diferente.
"Os resultados de ontem não permitem afirmar isso", afirma Iohana Bezerra. A união das duas federações não garantiria necessariamente mais deputados para o PSOL. Como os candidatos disputariam as vagas em uma lista única, respeitadas a votação individual e as exigências legais, o desempenho de Erika poderia ajudar o grupo a conquistar cadeiras, mas eventuais vagas adicionais poderiam ser ocupadas por candidatos do PT com votação superior, sem necessariamente ampliar a bancada do PSOL.
Conclusão: compreendendo a complexidade da eleição proporcional
A situação vivida pelo PSOL em São Paulo em 2024 serve como exemplo didático de como funciona na prática a eleição proporcional para deputados federais. Embora a federação PSOL/Rede tenha conquistado mais votos totais que a federação PT/PCdoB/PV, a distribuição desigual desses votos entre candidatos resultou em menos cadeiras para a legenda de esquerda.
Esse fenômeno não é falha do sistema, mas característica intrínseca da eleição proporcional, que busca equilibrar a representatividade total com a exigência de que cada candidato tenha demonstrado apoio mínimo individual para exercer o mandato. Compreender essas regras é fundamental para eleitores e analistas políticos avaliarem adequadamente os resultados eleitorais.



