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IA pode comprometer autonomia humana sem regulação imediata, alerta Nobel

IA pode comprometer autonomia humana sem regulação imediata, alerta Nobel
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Regulação da Inteligência Artificial é Urgente, Segundo Prêmio Nobel

A regulação da inteligência artificial representa uma questão crítica de segurança pública que não pode mais ser adiada. Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2021, alertou que a falta de marcos regulatórios adequados colocará em risco a autonomia humana em escala global. Segundo a jornalista filipino-americana, se medidas concretas não forem implementadas agora, a humanidade perderá o controle sobre tecnologias que estão sendo desenvolvidas em velocidade acelerada.

Ressa, que exerce função de copresidente do painel científico internacional da ONU sobre inteligência artificial, tem acompanhado de perto como essa tecnologia vem transformando a vida das pessoas em diferentes continentes. Sua experiência como fundadora do site de notícias Rappler lhe oferece perspectiva única sobre o impacto das grandes plataformas tecnológicas nas sociedades contemporâneas.

As Três Fases da Inteligência Artificial

Durante conferência realizada em Oslo sobre ameaças às democracias, Ressa explicou que a inteligência artificial já passou por três ondas distintas, cada uma com implicações profundas para a autonomia humana. Segundo ela, essas fases revelam uma progressão preocupante na capacidade dessa tecnologia de influenciar comportamentos e decisões.

Primeira Onda: Captura de Atenção

A primeira fase da inteligência artificial foi marcada pelo surgimento das redes sociais, que conseguiram capturar massivamente a atenção dos usuários. Essa etapa aprofundou polarizações políticas e contribuiu para o isolamento progressivo das pessoas, fragmentando o tecido social. As plataformas utilizaram algoritmos sofisticados para manter usuários engajados, explorando mecanismos psicológicos e emocionais.

Segunda Onda: Manipulação Biológica

A segunda onda envolveu o que Ressa denomina como "hackeamento" da biologia humana, novamente mediante exploração da necessidade de intimidade e conexão. Os chatbots e assistentes virtuais começaram a estabelecer relacionamentos que imitavam interações humanas autênticas, criando dependências comportamentais em populações inteiras. Essa fase alcançou sucesso notável na criação de vínculos emocionais entre usuários e sistemas de inteligência artificial.

Terceira Onda: Agência Autônoma

A terceira fase, ainda em desenvolvimento, envolve a chamada inteligência artificial agentiva e multiagentiva. Esses modelos avançados ultrapassam a simples simulação de comportamentos humanos e adquirem capacidade de agir independentemente em nome das pessoas. Essa transformação representa ponto de inflexão crítico para a autonomia humana, pois permite que máquinas tomem decisões e realizem ações em contextos cada vez mais complexos e importantes.

Regulação vs. Competição Tecnológica

Críticos da regulação mais rigorosa, incluindo o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, argumentam que controles estritos prejudicariam a competição tecnológica global, especialmente contra a China. Ressa descartou esse argumento como "uma boa manobra de relações públicas", apontando inconsistências nessa narrativa.

A ativista observou que a própria China implementa salvaguardas significativamente mais robustas para seus cidadãos do que as empresas do Vale do Silício oferecem para o restante do mundo. Como exemplo concreto, citou restrições de idade mais severas na versão chinesa do TikTok comparada com a versão disponível internacionalmente, demonstrando que regulação e competitividade não são necessariamente antagônicas.

Responsabilização das Grandes Empresas de Tecnologia

Ressa defende que o primeiro passo para promover mudanças significativas passa pela responsabilização das grandes empresas de tecnologia pelos danos causados. Ela elogiou as ações judiciais nos Estados Unidos que resultaram em penalidades monetárias expressivas e restrições operacionais impostas à Meta, incluindo pagamentos que chegam a aproximadamente 18 bilhões de dólares ao longo de uma década.

Essas ações judiciais também forçaram a empresa a implementar restrições mais severas ao uso do Facebook e Instagram por adolescentes, reconhecendo finalmente o impacto prejudicial desses serviços em populações vulneráveis. Essa abordagem de accountability oferece modelo que poderia ser expandido para outras corporações e tecnologias.

Iniciativas de Proteção e Comunicação Alternativa

Além de exigir regulação, Ressa também promove soluções proativas. Ela elogiou as medidas adotadas pela União Europeia e por países como a Austrália para estabelecer limites de idade nas redes sociais. Porém, enfatizou que tais restrições não resolvem o problema fundamental: as ferramentas desenvolvidas pelas empresas de tecnologia causam dependência comportamental não apenas em adolescentes, mas igualmente em adultos.

Propôs que plataformas de comunicação sejam desenvolvidas por organizações de interesse público, fora do controle das grandes corporações tecnológicas. Essa abordagem se alinha com investimentos governamentais tradicionais em bens públicos como parques, praças e sistemas de transporte. Como exemplo prático, citou o lançamento do Rappler Communities em 2023.

Rappler Communities: Modelo Alternativo

O Rappler Communities foi construído sobre protocolos abertos, seguros e descentralizados conhecidos como Matrix. Esse modelo permitiu que a redação do Rappler se conectasse diretamente com seus leitores, eliminando intermediários corporativos. Mais importante ainda, possibilitou que leitores interagissem entre si para estabelecer "conversas reais", como expressa Ressa.

A iniciativa expandiu-se para incluir outros veículos de comunicação das Filipinas e está sendo replicada em países do Sudeste Asiático. Representa tentativa de criar espaços digitais seguros onde pessoas possam comunicar-se livremente, escutar umas às outras e fortalecer processos democráticos fundamentais, contrapondo-se ao modelo extrativista das grandes plataformas comerciais.

Conclusão: Ação Imediata Necessária

Maria Ressa sintetiza seu alerta numa mensagem clara: "Acho que estamos naquele momento em que, se isso não acontecer, vamos perder o controle. A situação ficará fora do nosso alcance se não agirmos agora." Essa perspectiva ressoa com urgência apropriada, considerando a velocidade do desenvolvimento tecnológico e suas implicações para a autonomia humana em todo o mundo.

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