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Verificação: Fatos e Enganos da Entrevista de Renan Santos

Verificação: Fatos e Enganos da Entrevista de Renan Santos
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Análise Completa da Entrevista de Renan Santos ao g1 e GloboNews

A equipe de verificação de fatos realizou uma análise minuciosa das principais declarações feitas pelo candidato à presidência da República pelo partido Missão, Renan Santos, durante entrevista concedida ao g1 e à GloboNews nesta quarta-feira (5). A verificação de fatos é essencial para garantir que informações precisas e comprovadas cheguem ao público durante períodos eleitorais, permitindo que eleitores tomem decisões fundamentadas.

Declaração Sobre Ausência Paterna e Criminalidade

Renan Santos afirmou que 80% dos meninos que vão parar na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor) e que cometem crimes não têm a figura paterna, e que essa ausência tem correlação mais forte com crimes do que o Índice de Gini. A verificação de fatos indicou que essa declaração não é bem assim.

O estudo "Determinações demográficas do nível de criminalidade no estado de São Paulo", publicado em 2007 pelos economistas Gabriel Chequer Hartung e Samuel Pessoa da Fundação Getulio Vargas, menciona que a estrutura familiar impacta a criminalidade. Entretanto, o trabalho não faz menção a "80% dos meninos na Febem sem pai". Ao analisar dados de 643 municípios paulistas, os pesquisadores concluíram que indicadores econômicos como o PIB per capita e o Índice de Gini perdem relevância quando o modelo inclui variáveis demográficas, no caso de crimes violentos.

O estudo da FGV analisou especificamente o estado de São Paulo, não o Brasil inteiro, e examinou correlação de crimes violentos com ausência paterna, gravidez na adolescência e baixa escolaridade materna. Uma citação correlata mencionada na pesquisa refere-se a dado dos EUA de 1991, segundo o qual 57% dos detentos vinham de lares sem presença do pai nem da mãe, percentual bem diferente do afirmado.

Caso de Santa Quitéria e Comando Vermelho

O candidato relatou que viajou para Santa Quitéria no Ceará, cidade que foi "tomada pelo Comando Vermelho", e que o prefeito ganhou a eleição usando membros da facção como capangas, impedindo que pessoas votassem. A verificação de fatos confirmou que essa declaração é fato.

Em 17 de março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou os mandatos do prefeito de Santa Quitéria, José Braga Barrozo, e do vice-prefeito, Francisco Gardel, por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024. Segundo o processo, integrantes do Comando Vermelho intimidaram eleitores e apoiadores da chapa adversária durante a campanha, com ameaças, pichações e coação. Para o vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa, as provas indicaram que o prefeito e o vice tinham conhecimento das ações da facção, que foram utilizadas para influenciar o resultado da disputa eleitoral.

Proporção de Pareto e Reincidência Criminal

Renan Santos mencionou o "Princípio de Pareto", afirmando que "quase todo mundo que comete crimes são as mesmas pessoas", o que a verificação de fatos classificou como fake. O "Princípio de Pareto" refere-se à teoria segundo a qual cerca de 80% dos efeitos decorrem de 20% das causas, comumente usado em unidades de Polícia Civil, indicando que 20% dos criminosos seriam responsáveis por 80% dos crimes.

Entretanto, dados sobre reincidência criminal no Brasil variam significativamente. Diogo Viana, em artigo publicado na "Revista Pesquisa Fapesp" em 14 de agosto de 2023, menciona que "70% das pessoas que cumprem pena de prisão reincidem no crime", mas critica essa cifra, ressaltando que ninguém sabe de onde foi extraída. Estudos recentes em diferentes estados chegaram a números variando entre 24% e 51%, todos distantes dos 70% usados como referência.

O relatório "Reincidência criminal no Brasil" publicado em 2015, parceria entre Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ), chegou a taxa de 24% de reincidência. Estudos mais antigos conduzidos por sociólogos da Universidade de São Paulo aferiram taxas entre 29% e 46%, em dados de 1988 e 1991. No caso específico do latrocínio mencionado pelo candidato, a Delegacia de Homicídios da Capital ainda realizava investigações sem identificação do autor até a atualização da reportagem.

Taxa de Homicídios em São Paulo

O candidato afirmou que a taxa de homicídio a cada 100 mil habitantes em São Paulo diminuiu bastante. A verificação de fatos confirmou que essa declaração é fato. Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho, São Paulo tem a segunda menor taxa de mortes violentas do país, com 7,8 por 100 mil habitantes, menos da metade da média nacional de 19,1 por 100 mil habitantes. Entre 2024 e 2025, a redução foi de 3,9%, seguindo tendência histórica de redução de assassinatos nas cidades paulistas.

Diferenças Ideológicas Entre Jovens Homens e Mulheres

Renan Santos afirmou que "a direita jovem costuma ser mais masculina" e "a esquerda jovem costuma ser mais feminina", citando estudos internacionais. A verificação de fatos considerou essa declaração não é bem assim. Pesquisa "Juventudes: Um Desafio Pendente" divulgada em novembro pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung mostra que mulheres jovens brasileiras são mais progressistas que homens, que declararam posicionamentos mais conservadores. No Brasil, 20% das mulheres jovens se identificam com a esquerda contra 16% de homens jovens.

Professor Pablo Ortellado da Universidade de São Paulo observa que "é fato antigo e conhecido: homens são mais de direita que mulheres", mas ressalva que outras pesquisas como "Brasil invisível" realizada em 2025 pela More in Common "não encontrou nenhum padrão geracional ou de idade nas atitudes em relação a gênero e sexualidade". Séries de pesquisa internacionais como Lapop e Latinobarómetro também não mostram maior distância ideológica entre homens e mulheres jovens, indicando que tal distância no Brasil está dentro da margem de erro em quase todos os anos.

Aprovação Presidencial de Fernando Henrique e Michel Temer

Renan Santos citou o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer como exemplos de presidentes com baixa aprovação que realizaram reformas importantes. A verificação de fatos confirmou que essa declaração é fato. Michel Temer ocupou a Presidência entre maio de 2016 e fim de 2018, com aprovação de apenas 3% a 4% em pesquisas de 2017 e 2018, finalizando o mandato com 7% de aprovação conforme Datafolha de dezembro de 2018.

Durante sua gestão, Temer aprovou reforma trabalhista (julho de 2017), Medida Provisória que reformou ensino médio (fevereiro de 2017) e PEC do teto de gastos (dezembro de 2016). Fernando Henrique Cardoso, em segundo mandato entre 1999 e 2002, também enfrentou rejeição elevada, com 36% avaliando seu governo como ruim/péssimo em fevereiro de 1999. Entretanto, conseguiu instituir Fator Previdenciário (novembro de 1999) e Lei de Responsabilidade Fiscal (maio de 2000).

PEC da Transição Protocolo

Renan Santos mencionou PEC que deputados já teriam protocolado junto ao Kim Kataguiri, Pedro Paulo e outro deputado federal, "no processo de coleta de assinatura". A verificação de fatos classificou essa declaração como não é bem assim. Uma proposta ainda não foi formalmente apresentada, apenas está em processo de coleta de assinaturas. Necessita-se de pelo menos 171 assinaturas dos 513 deputados federais para apresentação formal. Até a atualização da reportagem, Pedro Paulo confirmou 61 assinaturas coletadas, bem abaixo do necessário para protocolo oficial.

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