Verificação de Declarações de Romeu Zema

Confira a Análise Completa das Declarações de Romeu Zema
Durante entrevista concedida ao g1 e à GloboNews nesta quinta-feira, o candidato à Presidência da República pelo partido Novo, Romeu Zema, fez diversas afirmações sobre sua trajetória política e gestão administrativa. A equipe de verificação de declarações Romeu Zema analisou minuciosamente cada uma de suas falas, identificando quais são fatos comprovados, quais são enganosas e quais necessitam de contexto adicional para melhor compreensão.
A entrevista foi conduzida pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery nos estúdios da GloboNews, no Rio de Janeiro. Este evento integra uma série de entrevistas realizadas com os principais candidatos presidenciais, abrangendo os cinco primeiros colocados na mais recente pesquisa Datafolha, divulgada em 24 de julho.
Análise das Principais Declarações
Alegação sobre Governo sem Escândalos
Romeu Zema afirmou: "Eu, como governador, fiz um governo de sete anos e meio sem nenhum escândalo, sem nenhuma corrupção." Esta declaração foi classificada como #FAKE pela equipe de verificação.
A Operação Rejeito, deflagrada em 2025 pela Polícia Federal, revelou um esquema bilionário de corrupção na mineração em Minas Gerais que impactou diretamente o alto escalão da administração Zema. A investigação identificou pelo menos quatro dirigentes de órgãos ambientais e de patrimônio que foram exonerados ou afastados dos cargos após serem mencionados nas apurações.
O inquérito aponta a existência de um grupo criminoso composto por empresários, delegados e políticos que subornava servidores públicos para obter licenças ambientais fraudulentas. Estas permitiam a exploração e manipulação do minério de ferro em diversas regiões do estado, incluindo áreas próximas a unidades de preservação ambiental. Entre os órgãos atingidos estavam a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais.
Melhoria das Finanças do Estado
A afirmação sobre transformação financeira foi verificada como #FATO. Zema declarou: "Como você disse muito bem, em Minas Gerais, nós saímos de um déficit para um superávit, o que era negativo em 2018, menos R$ 11 bilhões, em 2024 se transformou em R$ 5 bilhões positivos."
Segundo o Balanço Geral do Estado divulgado no final de 2018 pela Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais, o déficit orçamentário registrado foi de aproximadamente R$ 11,4 bilhões. Em 2024, o resultado apresentou um saldo positivo de R$ 5,1 bilhões, impulsionado significativamente por receitas extraordinárias obtidas através dos acordos de Mariana e Brumadinho.
Contudo, informações posteriores indicam que ao fim de 2025, a SEF-MG apontou um superávit de R$ 1,1 bilhão. Para o encerramento de 2026, a pasta projeta o retorno a um déficit de R$ 5 bilhões, indicando uma situação financeira que necessita acompanhamento contínuo.
Envolvimento de Instituições Privadas no Banco Master
Quanto à declaração sobre o Banco Master, a verificação classificou como #NÃOÉBEMASSIM. Zema argumentou que apenas entes públicos estavam envolvidos no escândalo, não mencionando bancos privados ou fundos de pensão privados.
Embora as investigações não mencionem envolvimento de bancos privados tradicionais nem de grandes fundos de pensão privados, empresas privadas aparecem claramente nas apurações. A Reag Investimentos é uma delas, com fundos administrados pela gestora sendo utilizados em operações para inflar o patrimônio do Banco Master e ocultar a participação acionária de Daniel Vorcaro no BRB.
Adicionalmente, a produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme "Dark horse" sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece nas investigações. Mensagens e áudios revelados mostram negociações envolvendo financiamento para a produção originária do esquema fraudulento. A Agência Nacional de Cinema abriu processo contra a Go UP por irregularidades na gravação do longa.
Situação das Finanças Públicas Estaduais no Passado
A declaração sobre a herança deixada pelo governo anterior foi verificada como #FATO. Zema afirmou que ao assumir em janeiro de 2019, herdou um estado com 240 mil servidores com nome sujo no SPC e Serasa devido à falta de repasse de empréstimos consignados pelo governo anterior.
A Polícia Civil de Minas Gerais indiciou o ex-governador Fernando Pimentel em maio de 2020 por crime de peculato, relacionado ao suposto desvio de R$ 855 milhões de recursos de empréstimos consignados. As investigações apontaram que o governo retinha dinheiro destinado a instituições financeiras privadas, afetando aproximadamente 260 mil servidores que tiveram seus nomes inclusos em cadastros de inadimplentes.
Filiados do Partido Novo Sob Investigação
A afirmação de que nenhum filiado do seu partido estava sendo investigado foi classificada como #FAKE. Zema disse: "Eu não tenho ninguém do meu partido sendo investigado."
O deputado estadual Elizeu Nascimento, do Novo de Mato Grosso, foi alvo de busca e apreensão em 30 de abril na Operação Emenda Oculta. A investigação apura o direcionamento irregular e suposto desvio de recursos de emendas parlamentares. Foram apreendidos R$ 200 mil no total em buscas realizadas.
Além disso, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, também do Novo e candidato ao Senado por São Paulo, responde no Supremo Tribunal Federal à Ação Penal 2.705 originada de investigação sobre suposto esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais. O caso aguarda julgamento e está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Geração de Empregos em Minas Gerais
A declaração sobre criação de empregos foi verificada como #FATO. Em 2018, anterior ao mandato de Zema, a taxa de desemprego em Minas Gerais foi de 10,8% segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação ficou em 5%, representando uma queda de 5,7 pontos percentuais entre 2018 e 2026.
Segurança de Barragens
Sobre as medidas de segurança em barragens, a verificação classificou como #NÃOÉBEMASSIM. Embora Zema tenha implementado a Lei nº 23.291 em fevereiro de 2019 (conhecida como Mar de Lama Nunca Mais), parte das normas de segurança já existia anteriormente.
A Política Nacional de Segurança de Barragens foi criada em 2010, e Minas Gerais já realizava um programa estadual de gestão e fiscalização antes de 2019. O número de 18 barragens descaracterizadas citado por Zema está desatualizado. Conforme painel do Ministério Público de Minas Gerais atualizado em julho de 2026, 23 estruturas já foram descaracterizadas e 30 seguem em processo de descaracterização.
Processo por Calúnia
A declaração sobre processo respondido foi verificada como #FATO. Zema é alvo de processo por crime de calúnia que tramita em segredo de justiça no Superior Tribunal de Justiça. O caso refere-se a um vídeo postado em março de 2020 no Instagram mostrando de forma irônica ministros do STF em um conteúdo sobre o Banco Master.
População em Áreas Controladas por Facções
A afirmação sobre população vivendo em áreas controladas por criminalidade foi verificada como #FATO. Pesquisa do Datafolha publicada em maio de 2026, contratada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, estima que 68 milhões de brasileiros percebem a presença de grupos criminosos em seus bairros, equivalente a 41% da população.
Estudo realizado pela Universidade de Cambridge e publicado em agosto anterior apontou que entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de pessoas vivem em locais com regras impostas por facções criminosas, aproximando-se do número mencionado pelo candidato.
Comandos de Segurança Liderados por Mulheres
A declaração sobre liderança feminina foi verificada como #FATO. Os cargos de comando do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil de Minas Gerais são ocupados por mulheres: coronel Jordana de Oliveira Filgueiras Daldegan, coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues e delegada-geral Letícia Baptista Gamboge Reis, respectivamente.
A verificação consultou os comandos destes órgãos em todos os 26 estados e no Distrito Federal, confirmando que nenhum outro ente federativo possui mulheres nos três cargos simultaneamente.
Multas Ambientais e Acordos de Reparação
Sobre as multas ambientais, a verificação classificou como #NÃOÉBEMASSIM. Zema afirmou que aplicou a maior multa ambiental da história, superando a de Mariana. Contudo, a análise revela maior complexidade.
A Secretaria de Meio Ambiente de Minas aplicou à Samarco em novembro de 2015 uma multa inicial de R$ 112 milhões por poluição ambiental em Mariana. Posteriormente, lavrou 31 autos de infração, dos quais cinco foram anulados após recursos. Entre os válidos havia uma multa de R$ 127,6 milhões e outra de R$ 180 milhões relacionada à mortandade de peixes.
Em Brumadinho, a Semad aplicou inicialmente aproximadamente R$ 99 milhões à Vale, enquanto o Ibama aplicou R$ 250 milhões. Portanto, a multa inicial de Brumadinho não superou a primeira multa de Mariana de R$ 112 milhões.
O valor de R$ 37 bilhões citado por Zema refere-se ao Acordo Judicial de Reparação de Brumadinho assinado em fevereiro de 2021, não exclusivamente a uma multa. Este acordo não foi aplicado unicamente pelo governo estadual, mas por parceria entre múltiplas instituições públicas. O acordo de Mariana foi repactuado em 2024 por R$ 170 bilhões, tratando-se também de reparação e compensação, não de aumento retroativo de multa ambiental.
Conclusão da Verificação
A análise de declarações de Romeu Zema revela um padrão misto entre afirmações verificadas, enganosas e que necessitam contextualização. Enquanto alguns números sobre finanças estaduais e indicadores econômicos correspondem à realidade, declarações sobre ausência de corrupção e de investigações contra filiados demonstram-se imprecisas diante das evidências documentadas. A verificação completa fornece aos eleitores informações substanciais para avaliação criteriosa do candidato.




