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Tráfico de ovos de aves nativas movimentou R$ 90 milhões

Tráfico de ovos de aves nativas movimentou R$ 90 milhões
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Desmantelamento de organização criminosa internacional de tráfico de ovos de aves

A Polícia Federal e autoridades policiais europeias conseguiram desbaratar uma sofisticada rede internacional dedicada ao tráfico de ovos de aves nativas do Brasil, movimentando aproximadamente R$ 90 milhões em operações ilícitas. A investigação, que resultou em prisões tanto no exterior quanto no território nacional, revelou um esquema que operava há quase duas décadas, transportando ovos de espécies ameaçadas de extinção para mercados europeus.

O início da investigação no Aeroporto do Galeão

A operação teve seu ponto de partida quando agentes da Polícia Federal flagraram a cidadã suíça Erika Zumofen-Göllesz tentando embarcar no Aeroporto Internacional do Galeão, localizado no Rio de Janeiro. A suspeita portava consigo 24 ovos de espécies raras e protegidas, especificamente papagaio-de-cara-roxa e papagaio-charão, aves endêmicas do Brasil e com estatuto de proteção internacional.

De forma criativa e arriscada, Zumofen-Göllesz tentava contrabandear os ovos envolvidos em meias de seda, acondicionados junto ao corpo. Cada ovo era comercializado no mercado negro por valores superiores a R$ 6 mil, demonstrando a lucratividade do tráfico de ovos de aves no circuito criminoso internacional. Embora liberada inicialmente após prestar depoimento, a apreensão do seu celular pelos agentes federais se revelaria fundamental para desvendar toda a operação.

Mapeamento da rede criminosa europeia e brasileira

Através da análise forense do aparelho eletrônico, investigadores identificaram contatos cruciais que conectavam diversos pontos da rede. O celular revelava comunicações frequentes com Hans Zehnder, proprietário de dois grandes viveiros especializados em aves na Suíça, além de ligações recorrentes para a família Schwarz, residente em Curitiba, no Paraná.

A investigação indicava que Marco Schwarz, sua esposa Rita Lydia Schwarz e sua filha Cláudia Fabiana Schwarz operavam uma sofisticada loja de equipamentos para captura e manejo de animais silvestres, instalada dentro de sua residência. Essa estrutura permitia que o casal obtivesse os ovos de ninhos localizados em áreas de conservação ambiental, particularmente na região de Bocaiúva do Sul, no interior paranaense.

Operações internacionais e escalada das prisões

Após constatar que Marco Schwarz embarcaria para a Suíça a partir de Curitiba, a Polícia Federal coordenou uma operação transnacional com as autoridades suíça e espanhola. Dois agentes federais brasileiros foram deslocados para a Europa com o objetivo de monitorar os movimentos dos suspeitos.

A operação culminou com a prisão em flagrante de Marco Schwarz e Hans Zehnder dentro de um quarto de hotel localizado na Ilha de Gran Canária, no arquipélago das Ilhas Canárias, Espanha. No local, policiais apreenderam numerário em diversas moedas, totalizando aproximadamente R$ 260 mil em cédulas de euros e francos suíços. Os acusados foram transferidos para Madri e aguardam processo de extradição para o Brasil.

Buscas e apreensões no território brasileiro

Simultaneamente às operações na Europa, a Polícia Federal executou mandados de busca e apreensão na residência e loja da família Schwarz em Curitiba. Rita Lydia Schwarz e Cláudia Fabiana Schwarz foram presas durante essas operações. Os agentes apreenderam 61 animais empalhados e 130 partes de animais silvestres, incluindo crânios e dentes de espécies protegidas como o mico-leão-de-cara-dourada e primatas de origem colombiana.

Essas condutas foram formalmente enquadradas nos termos da Lei de Crimes Ambientais brasileira. A suíça Erika Zumofen-Göllesz permanece foragida das autoridades. Segundo comunicado oficial, Cláudia Fabiana Schwarz obteve liberdade provisória e aguarda análise dos autos do processo.

Escala e duração da operação criminosa

De acordo com informações divulgadas pela Polícia Federal, a organização criminosa atuou de forma contínua durante aproximadamente 20 anos. Durante esse período, realizou cerca de 120 viagens internacionais, transportando uma média de 20 ovos em cada trajeto. A intensidade das atividades ilícitas concentrava-se principalmente entre agosto e março, período que coincide com a estação reprodutiva das espécies alvo na região da Mata Atlântica.

Impacto ambiental do tráfico de ovos de aves

O transporte clandestino de embriões provoca consequências devastadoras para os organismos. Fernanda Guida, bióloga especializada do Zoológico de São Paulo, explica que a incubação representa um processo extremamente delicado, exigindo controle preciso de temperatura e umidade ambiental. Sem essas condições adequadas, a maioria dos embriões não sobrevive ao trajeto.

Do total de 24 ovos apreendidos com Zumofen-Göllesz no Aeroporto do Galeão, apenas 9 papagaios conseguiram completar seu desenvolvimento e nascer com vida. Esse índice de sobrevivência de apenas 37,5% ilustra o custo biológico do tráfico de ovos de aves nas populações selvagens.

Outras apreensões e resgate de filhotes

A fiscalização registrou operações adicionais contra o contrabando de embriões. Em Foz do Iguaçu, divisa entre Brasil e Paraguai, um casal de cidadãos chineses foi capturado transportando 34 ovos em incubadoras improvisadas, alguns acondicionados nas costuras de uma jaqueta e outros em uma sacola. Desse lote, 18 filhotes já completaram o nascimento e recebem cuidados veterinários especializados.

No Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, foram confiscados 71 ovos destinados à China e Vietnã em um período de apenas cinco dias. Esses espécimes foram encaminhados ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS), órgão vinculado ao governo do estado de São Paulo.

Reabilitação e perspectivas de reintrodução ambiental

As aves resgatadas e alimentadas manualmente por cuidadores especializados desenvolvem comportamentos de elevada sociabilidade e vulnerabilidade, o que impossibilita sua liberação direta nos ambientes selvagens. A equipe de profissionais ambientais trabalha para viabilizar a formação de casais reprodutivos dentro do ambiente do zoológico, permitindo que a próxima geração de filhotes, criada em condições mais próximas ao estado selvagem, possa ser gradualmente reintroduzida nas florestas nativas brasileiras.

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