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Témiscaming luta contra tarifas de Trump para salvar sua fábrica

Témiscaming luta contra tarifas de Trump para salvar sua fábrica
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Uma cidade inteira dependente de uma indústria

As tarifas de Trump representam uma ameaça existencial para Témiscaming, Quebec, uma pequena comunidade que há mais de um século construiu sua identidade e economia ao redor de uma única fábrica de papel. Ao atravessar o rio Ottawa em direção à região, a unidade industrial domina a paisagem, ocupando um lugar central não apenas físico, mas também na vida de seus 360 funcionários e nas famílias que dependem dos salários gerados pela produção.

Fundada no início do século XX, a cidade nasceu das florestas locais repletas de pinheiros, bétulas, abetos e pinheiros-do-oregon. O moinho de papel tornou-se o coração pulsante dessa comunidade rural canadense, transformando recursos naturais em produtos comerciais que abasteciam mercados na América do Norte. Durante décadas, essa relação funcionou perfeitamente, mas a atual guerra comercial entre Canadá e Estados Unidos mudou esse cenário de forma dramática.

O impacto das tarifas e o fechamento econômico

Em outubro, a proprietária americana da fábrica, RYAM, anunciou uma paralisação por razões econômicas sem prazo definido. Essa decisão catastrófica chegou após o fracasso das negociações comerciais entre Ottawa e Washington, culminando na imposição de tarifas de até 50% sobre produtos canadenses, incluindo celulose, papelão e papel. A fábrica de Témiscaming, que envia aproximadamente 75% de sua produção para o mercado americano, tornou-se economicamente inviável sob essas condições.

O programa de alívio tarifário do governo fornece pagamentos parciais aos desempregados, mantendo temporariamente a sobrevivência de grande parte dos 360 trabalhadores. Contudo, essa medida funciona como um curativo em uma ferida profunda. Os moradores enfrentam incerteza quanto ao futuro próximo, e muitos começam a considerar sair da cidade em busca de oportunidades em centros urbanos maiores.

Consequências econômicas visíveis nas ruas

O impacto nas propriedades foi imediato e devastador. O valor dos imóveis em Témiscaming desabou praticamente da noite para o dia, com placas de «Vende-se» espalhando-se pelos jardins de casas modestas de classe média que caracterizam a região. Profissionais essenciais — desde funcionários de supermercados até médicos dos pequenos hospitais locais — começam a sair em busca de estabilidade financeira.

Ronnie Raymond, cuja família trabalha na fábrica há gerações, expressa o temor coletivo: se a indústria fechar permanentemente, Témiscaming transformar-se-á em uma «cidade fantasma». Raymond alerta que «não vai sobrar nada, absolutamente nada. Na verdade, não haverá trabalho para ninguém. É assustador». Essa não é apenas uma preocupação retórica — é uma realidade visceral vivida diariamente pelos moradores.

Efeito cascata na indústria florestal regional

Os impactos das tarifas de Trump transcendem as muralhas da fábrica. A crise econômica pode provocar efeitos em cadeia em todo o setor florestal da região, afetando serrarias e empresas de transporte rodoviário. Um empreiteiro local informou à BBC que já precisou demitir 13 funcionários apenas para manter sua empresa viável. Essa multiplicação de demissões cria um círculo vicioso onde cada setor depende do sucesso do anterior.

Narrativa de esperança: a história dos anos 1970

A última vez que Témiscaming enfrentou uma ameaça tão grave foi em 1973, quando o proprietário anterior ameaçou fechar a fábrica. Naquela ocasião, trabalhadores e gestores locais conseguiram se unir para comprar a empresa coletivamente, transformando-a na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense com operações na América do Norte e França.

Frank Dottori, agora com mais de 80 anos, foi engenheiro crucial nesse processo. Ele recorda-se de ter sido «educadamente colocado para fora» pelo então primeiro-ministro de Quebec quando buscava apoio inicial. Apesar das dificuldades, conseguiram implementar cortes salariais de 10% que os funcionários aceitaram coletivamente, viabilizando a compra. Dottori atribui o sucesso ao carisma de um ex-funcionário com experiência em gestão.

Hoje, os trabalhadores esperançosos tentam repetir esse feito histórico, mobilizando uma coalizão de moradores interessada em recomprar a fábrica da RYAM, que a adquiriu em 2017. Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical cuja família trabalha na fábrica há gerações, afirma: «Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar».

Desafios políticos e financeiros

Entretanto, Lefebvre reconhece que essa recompra só será possível com ajuda significativa do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, seja através de alívio tarifário ou apoio financeiro direto. Nadine Suley observa que Carney, desde sua eleição, enfatizou a importância de «comprar produtos locais» e apoiar trabalhadores canadenses. Para ela, respaldar a iniciativa de recompra seria cumprir essa promessa.

O prefeito Alain Gauthier descreve as tarifas americanas como «uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá». Ele solicita que o governo federal responda com tarifas sobre produtos de papelão importados dos EUA, que atualmente entram no país sem cobrança. Gauthier critica a resposta federal, afirmando que embora os políticos declarem estar em guerra econômica, «na realidade, não vemos absolutamente nenhuma evidência de que medidas de guerra estejam sendo tomadas».

Disparidade no apoio governamental

Alguns moradores, incluindo Lefebvre, acreditam que o setor florestal ficou em segundo plano nos esforços para salvar outras indústrias afetadas pelas tarifas. Em contraste, quando a siderúrgica Stelco planejava demitir cerca de 500 funcionários, a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou impor sanções financeiras ou forçar venda de ativos. Recentemente, Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, anunciaram um pacote de investimentos de quase C$ 9 bilhões para setores siderúrgico e automobilístico.

Um porta-voz da ministra Joly informou ter disponibilizado C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de um programa para ajudar empresas afetadas a obter capital de giro. Contudo, muitos em Témiscaming questionam se essas medidas são suficientes ou chegam a tempo.

Esperança nas eleições americanas e desafio climático

Trabalhadores depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos EUA, acreditando que resultados possam pressionar Trump — cujos índices de aprovação caem conforme pesquisas — para reduzir tarifas sobre o Canadá. Recentemente, após articulação da senadora republicana Susan Collins, algumas tarifas foram suspensas, mas os produtos de Témiscaming não foram contemplados.

Uma preocupação urgente é o inverno próximo. Temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos da fábrica paralisada, causando danos que tornariam reabertura ainda mais difícil. Essa janela de tempo limitada intensifica a pressão para encontrar soluções rapidamente.

Determinação e resiliência comunitária

Apesar dos desafios, Stéphane Lefebvre permanece determinado. «Estamos no jogo 7 agora», diz ele. «Vamos jogar até o apito final». Essa mentalidade reflete o espírito de uma comunidade que já sobreviveu a crises anteriores e recusa-se a desistir sem lutar pela sua sobrevivência e preservação de seu modo de vida.

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