Elza Soares: voz política no século XXI

A voz de Elza Soares como ferramenta de transformação social
A voz de Elza Soares transcendeu o universo musical para se estabelecer como um poderoso instrumento de luta contra opressões sociais no século XXI. Este é o argumento central da obra "Elza Soares – Insurreição na garganta", escrita pela jornalista Lígia Moreli e publicada pelas Edições Sesc. A obra disseca minuciosamente como a cantora carioca utilizou sua arte para combater o racismo, a violência de gênero e outras pautas identitárias que marcaram profundamente sua trajetória.
O prefácio do livro, assinado pela cantora e pesquisadora musical Fabiana Cozza, estabelece uma reflexão profunda sobre o ato de cantar como expressão política. Cozza escreve: "Cantar é político! Não se canta sem as marcas ou cicatrizes que dizem sobre um corpo, que agem sobre ele". Esta introdução não apenas apresenta a obra, mas também fundamenta teoricamente a tese central de Moreli sobre como a voz e o corpo de Elza funcionam como instrumentos de resistência.
O álbum de 2015 como ponto de ruptura
A narrativa da obra enfoca especialmente o período a partir de 2015, quando Elza Soares lançou "A mulher do fim do mundo", álbum que a reposicionou no topo da música brasileira com composições de grande impacto estético e político. Este disco marca uma ruptura significativa na carreira da artista, consolidando uma imagem muito mais nitidamente politizada do que aquela perpetuada pela mídia durante décadas.
Antes deste momento de ressurgência, Elza era frequentemente reduzida a estereótipos midiáticos que a caracterizavam como a "mulata assanhada" dos sambas dos anos 1960. O álbum de 2015 permitiu que a artista ressurgisse como a "mulher do fim do mundo", renascida das cinzas de um mercado musical em profunda transformação pela era digital. Este período coincidiu com o surgimento das redes sociais como ferramentas de expressão, liberando artistas da dependência de gravadoras e da mídia tradicional para alcançar seu público.
Precedentes políticos na discografia de Elza
Embora 2015 represente um marco importante, Moreli demonstra que a dimensão política da voz de Elza Soares sempre esteve presente em sua discografia. Discos anteriores como "Somos todos iguais" (1985) e especialmente "Do cóccix até o pescoço" (2002) já esboçavam a revolução que seria plenamente consumada treze anos depois.
O álbum de 2002, citado frequentemente ao longo do livro, funcionou como precursor dos temas que explodiria em 2015. Produzido por Guilherme Kastrup e com direção artística de Celso Sim e Romulo Fróes, "A mulher do fim do mundo" consolidou definitivamente o controle de Elza sobre sua própria narrativa, permitindo que ela articulasse seus discursos sem intermediários.
Estrutura e análise da obra de Lígia Moreli
A obra de Lígia Moreli organiza-se em três capítulos principais seguidos de uma conclusão. O primeiro capítulo, "Elza à luz do século XXI", estabelece o contexto contemporâneo no qual a voz de Elza Soares ganha novas dimensões políticas. O segundo, "Vozes e extremidades do fim do mundo", analisa as particularidades do repertório que emergiu após 2015, dissecando letras e sonoridades.
O terceiro capítulo, "Poética da insurreição na garganta", mergulha na própria metáfora do título, explorando como a voz literalmente insurrecciona no corpo da cantora. A conclusão, intitulada "Uma voz que ainda move a história", traça paralelos entre o discurso de Elza Soares e gerações posteriores de artistas negras, como Luedji Luna, demonstrando o legado duradouro de sua postura política.
O show "Planeta Fome" e a consolidação do legado político
Moreli dedica atenção especial ao discurso proferido por Elza Soares no palco do Rock in Rio em 2019, durante a estreia do show "Planeta Fome". Este espetáculo, baseado no álbum homônimo de 2019, consolidou a postura política da artista em escala ainda maior. O festival, com sua magnitude e alcance global, transformou a apresentação de Elza em um momento de visibilidade máxima para suas mensagens sobre feminismo negro, resistência e dignidade humana.
Resiliência e transcendência de uma artista legendária
Embora o foco principal da obra concentre-se no período de ressurgência político-artístico de 2015 em diante, Moreli não negligencia a trajetória completa de Elza Soares (23 de junho ou 22 de julho de 1930 – 20 de janeiro de 2022). A narrativa reverbera momentos cruciais em que a cantora subverteu expectativas sociais, passou pelas "frestas de portas fechadas" para sobreviver e manteve sua voz ativa mesmo diante de tentativas de silenciamento.
A autora retoma a metáfora do título da biografia de 1997 escrita pelo jornalista José Louzeiro, "Cantando para não enlouquecer", para enfatizar como Elza utilizou a música como ferramenta de sobrevivência psicológica e espiritual. Esta perspectiva confere profundidade histórica à análise de Moreli, mostrando que a política de Elza Soares não emergiu subitamente em 2015, mas brotou de décadas de resistência cotidiana.
Legado de feminismo negro e esperança
A voz de Elza Soares consolidou-se como símbolo de feminismo negro brasileiro, bandeira que ela hasteou publicamente a partir de 2015. Sua importância transcende a música, configurando-se como um exemplo de resiliência em um mundo que historicamente tentou abafar as falas e o canto político de vozes negras. Até sua morte em janeiro de 2022, manteve-se como referência viva de que outra narrativa é possível, que outras vozes podem ecoar e transformar realidades.
A obra de Lígia Moreli oferece aos leitores uma oportunidade de compreender profundamente como a voz e o corpo de uma artista podem funcionar como instrumentos de revolução cultural. "Elza Soares – Insurreição na garganta" não apenas documenta a trajetória de uma grande cantora, mas também teoriza sobre o potencial transformador da arte negra quando expressada com intencionalidade política clara e inequívoca.




